Solidão

Atualizado: 4 de out. de 2020

Texto de Margarida Viñas Ribeiro Lima, publicado em



“Solidão” é palavra que comporta várias traduções: “Estado de quem se acha ou se sente desacompanhado ou só; isolamento(…) Sensação ou situação de quem vive afastado do mundo ou isolado em meio a um grupo social(…) Retiro, desamparo, abandono”… Mesmo considerando que o sentimento possa repercutir de maneiras diferentes dentro de cada um, a solidão tem chamado atenção dos profissionais da saúde pública. E a recente quarentena fez ela ecoar no interior de todos nós.

O tema inquietou pensadores como Alexis de Tocqueville e Émile Durkheim, e, já então, o sofrer a ele associado foi ligado às transformações políticas e econômicas da modernidade.  Seguramente, compreendê-la como um problema é algo bem recente. Antigamente, estar só significava ter-se deixado sem deus.

Inicialmente, quando o sentimento de solidão se tornou um ‘assunto’, foi visto como um achado compensador: a solidão passou a ser lugar de exploração do humano. Daniel Defoe percorreu as angústias de Robson Crusoé à exaustão; não foram poucos os que investigaram suas vivências como anacoretas. Mas, com o tempo, a palavra solidão foi adquirindo um tom negativo, associado à ausência de laços e ao isolamento.

Não possuindo ainda o peso social de estigma que hoje comporta, a palavra aparece poucas vezes nos escritos de Freud. É a causa primeira para despertar ansiedade, especialmente em crianças. Para elas, é a ausência da mãe que constitui o perigo, acionando a ansiedade. Por outro lado, na obra freudiana a solidão é também o palco para as descobertas sexuais infantis, necessárias para um desenvolvimento saudável. E, por fim, é vista também como uma condição importante para a produção de conhecimento, pois é na solidão que o trabalho intelectual se desenvolve.

Portanto, é na sua relação com a produção de ansiedade e/ou sofrimento que o tema inquieta. O que ocorre, nessa conexão com o outro (ou na sua ausência), que atormenta? É através do binômio demanda-desejo que o homem se conecta com seu semelhante. Tudo se passa como se o outro cantasse uma música, expondo seus acordes, suas dores e demandas. A música do outro reverbera em nós, desperta nosso desejo de responder ao seu canto.


Ecoando nos nossos ouvidos, nos perguntamos como entoar os próximos acordes, com os quais a melodia continua a ser cantada; se não tivermos meios para prevê-los, sobrevém a ansiedade. “Que Vuoi?”- “O que queres de mim?” – é a pergunta que remete à falta do outro, que procuramos, a todo custo, preencher. A falta está contida na música, assim como as pausas fornecem o desejo pela sonoridade das notas musicais.

Na sinfonia que se produz, ora cantando demandas, ora respondendo com seu desejo às faltas entoadas pelo outro, o sujeito vive entre duas posições: sujeito demandante/desejante e objeto de desejo/demandado. Quando a música escutada comove, a ansiedade provocada desperta o desejo de respondê-la. Homero ilustra bem a ansiedade provocada pelo canto demandante das Sereias. Para evitar respondê-lo, Ulisses se faz amarrar ao mastro e tapa, com cera, os ouvidos de todos os seus companheiros.


Na versão de Kafka, as Sereias reagem à Ulisses com uma estratégia mais terrível que seu canto: o seu silêncio. Esse, Ulisses não conseguiu escutar. Diante da individualidade da vida moderna, acreditamos possível pensar a solidão nessa articulação, entre demanda de um e desejo do outro. Há músicas que não ressoam. E silêncios que não podem se fazer ouvir.

Assim, pode-se imaginar uma solidão quando o sujeito não é demandado, porque se considera que ele é inapto para cantarolar. Ao não se ver requisitado, a solidão aqui se relaciona com o empobrecimento da imagem de si e todas suas repercussões. É como uma música que se ouve ao longe, mas é para outro que é cantada. Parece ser o que se passa com alguns idosos, distantes do trabalho, muitas vezes incapazes de cuidar até de si mesmos. Os filhos, já criados, possuem demanda próprias, direcionadas a outros.

É também possível pensar a solidão por parte de quem é demandado, mas é incapaz de desejar. A melodia que lhe é cantada não aciona seu desejo. A melancolia é um exemplo: com seu investimento libidinal concentrado no supereu crítico, o melancólico não se permite cantar.

Por outro lado, pode-se também pensar nos que não se autorizam demandar, por não se verem como detentores de capacidades e direitos. Talvez aí pudéssemos imaginar o masoquista, que nada pede para si. E há ainda os que não conseguem se imaginar objetos do desejo alheio, por inibições na sexualidade. Também aqui talvez se possa pensar nas solidões promovidas pela desigualdade social, reguladora do direito de quem pode demandar e desejar.

A solidão se faz presente quando a pulsão enlaça um objeto, mas a música não se produz. Nesse sentido, é possível imaginar que quanto maior a dependência do desejo ou da demanda do Outro, mais se fica sujeitado a sentir a solidão como sofrimento. Poder construir uma relação de clareza com os seus próprios anseios e desejos talvez seja um caminho possível para preencher, com vida, o que se percebe como vazio quando se está só.

Afinal, solidão pode, ou não, ser solitária. O sujeito pode estar só, mas conectado, erotizado, amando, produzindo, sublimando, como Freud nos alertou. Existem solidões que são enriquecedoras e estruturantes para o sujeito. Nesse sentido, há que se construir uma solidão que não signifique estar só, mas estar “em si”.



#Solidão #Isolamento #Pandemia

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