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Liberdade demais é perversão

Atualizado: 24 de out. de 2020

Esse texto foi publicado no Lugar de fala, da revista Cult, em 15.10.2020.




Aos nove anos, corria solta pela praça da minha infância, pensando que ali podia tudo. Entre os passeios que contornavam o gramado, brotavam castelos e cresciam cidades onde galopávamos em cavalos feitos com cabos de vassouras. A praça continha o mundo. Hoje, quarenta anos depois, me pergunto se nesse nosso mundo ainda existem praças como aquela, pois crianças não mais se perdem por ruelas e nem correm soltas por aí. Nos sentíamos livres sem sequer saber o que significava liberdade. E hoje, que bradamos essa palavra aos quatro ventos, resta a certeza de que ela contém algo profundamente dúbio e ilusório.


Na antiguidade, perder a liberdade era a pena por ser vencido na guerra. Cidadãos eram os homens livres, únicos detentores de direitos. Mulheres e escravos tinham deveres; afinal, direitos não são para todos e mesmo que se pretendesse que o fossem, uns sempre tem mais que outros. No colonialismo, a necessidade de mão de obra fez festa com os negros. Os impérios e suas colônias permitiram-se apossar de seus corpos e almas; desumanizaram-nos, prenderam-lhes grilhões e até hoje há consequências dessa situação.

Onde há muita liberdade para uns, desaparece a dos outros, nos conta toda a história. Não há liberdade sem lei. Homo homini lupus é a frase de Plauto, popularizada por Thomas Hobbes e retomada por Freud. O homem é o lobo do próprio homem. As exigências civilizatórias fazem com que tenhamos que abrir mão de um pouco de liberdade em prol da convivência em comunidade. Em última análise, troca-se algumas satisfações por segurança. É o “contrato social”, desenhado por Rousseau. Através dele, desejos e liberdades de cada um sofrem restrições, a fim de que todos possam viver bem, conjuntamente.

O problema é que na prática isso não acontece assim. Alguns simplesmente não aceitam as restrições. Querem ter mais que os outros. Subjugam o semelhante, mantendo-o sob o seu domínio. E, para piorar, hoje em dia esse domínio perdeu o rosto e a ele todos estão, de alguma forma, sujeitados, pelas mais diversas estratagemas ditadas pelo capital e pela tecnologia.

Freud já apontara, em O mal-estar na civilização, que o homem não é exatamente uma criatura gentil, que apenas deseja ser amada, defendendo-se unicamente quando atacada. Não… ao contrário, somos dotados de uma imensa dose de agressividade. Por isso, o semelhante não é apenas um potencial parceiro ou objeto de desejo sexual, mas também alguém sobre quem essa agressividade pode ser descarregada; seu trabalho explorado sem compensação; alguém que pode ser abusado sexualmente sem consentimento, de cujas posses se pode apropriar; alguém que pode ser humilhado, torturado e morto.

Freud certamente não imaginou tudo isso: escutou, atentamente, seus pacientes. Hoje os fatos são facilmente observáveis na mídia, basta ligar a televisão. Queimam-se florestas, extinguem-se espécies, tudo para que alguém se beneficie das riquezas da terra vazia. Mata-se Marielles, negros, crianças… por interesse, perversão ou mero descaso.

Políticos falam o que querem sem nenhuma responsabilidade. Aqueles a quem cabe manter a ordem são justamente os que criam a desordem. Isso foge ao contrato social, combinação primeira e metáfora da criação da sociedade. É perversão o nome que a liberdade ganha quando vira o caldo, quando o limite some, quando o agir de um se transforma no atropelamento do outro.

Não há liberdade desmedida!

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