Freud e a Morte

Atualizado: 19 de dez. de 2020



Anos vinte, o que se repete? Nestes "vinte" fatídicos, o mundo encara perplexo a marca de mais de um milhão e seiscentas mil mortes. Cem anos atrás, período entre guerras, onde outras tantas vidas se perderam, Freud publicava “Além do Princípio do Prazer”, falando sobre a pulsão mortífera.


“Além...” foi um escrito em que Freud se deparou com a contrariedade de seus discípulos, conforme Jones refere na sua biografia, incluindo-se. Alexander, Eitinton e Ferenczi, no entanto, o apoiaram imediatamente, justificando suas premissas com aportes de outros campos da ciência, como na lei da entropia, da Física.


Desde jovem muito preocupado com pensamentos de morte, durante a Conferência de presidentes da Associação Internacional de Psicanálise, em 1912, Freud diz: Que doce deve ser morrer!, logo após um desmaio, em Munique.


Max Schur, no seu livro “A morte na vida de Sigmund Freud” descreve de outra maneira a atitude deste último frente a morte: como a maioria, não queria morrer. “Não se quer morrer nem cedo, nem completamente. Mas, ante o risco de morrer, prefere-se uma morte súbita.”


Em 1920, entretanto, o ano em que escreve “Além...”, Freud recebeu dois golpes, um para o qual estava preparado e outro absolutamente inesperado. O primeiro foi a morte de seu amigo Anton Von Freund, dia 20 de janeiro, a quem Freud havia visitado quase diariamente fazendo todo o possível para aliviar-lhe a situação e de quem dirá que “morreu heroicamente, sem envergonhar a psicanálise”.


O outro evento, inesperado, chegou poucos dias depois. No dia 25 de janeiro chegou o telegrama que anunciava a morte de Sophie Halberstadt, a linda filha de Freud a quem chamavam “criatura primorosa”. Estava grávida e antes de completar vinte e seis anos deixava dois filhos: Ernst, com cinco anos, e Heinz Rudolf, de um ano.


Terá sido uma tentativa de encarar a realidade o que, em carta a Pfister no dia seguinte ao que recebeu a notícia, diz a ele: “Foi barrada deste mundo como se nunca tivesse existido”? Seu teste de realidade é tão contundente que, paradoxalmente, põe em duvida a própria existência de Sophie. A Eintinton escreveu: “Não sei o que mais se pode dizer. É um feito de efeito tão paralisante que não pode inspirar reflexão alguma...Crua fatalidade, muda submissão.”


Seria uma tentativa de sobreviver ao trauma psíquico o que escreve a Ferenczi? “Com toda a dor que foi o fatal acontecimento não foi capaz de chatear minha atitude frente a vida. Durante anos vivi preparado para sofrer a perda de meus filhos varões. Agora chega a de minha filha...Minha mulher e Anna sofrem uma comoção terrível, em um sentido que diríamos...mais humano”.

Segundo Jones, para Freud não foi nenhuma surpresa concluírem que suas ideias sobre a pulsão de morte decorreram do luto por Sophie. Assim fez Wittels, que estava preparando uma biografia sobre Freud. Em 18 de dezembro de 1923, Freud lhe escreveu, dizendo que ele estava errado, pois havia começado a pensar o texto em 1919, quando sua filha estava saudável, e acrescentando que “o provável nem sempre é a verdade.”


Apesar disso, um rastro desta morte aparece no “Além...” A propósito do Fort-da e referindo-se ao neto Ernst, Freud escreve: “Tendo o menino 5 anos e 9 meses morreu sua mãe. Agora que realmente Fort (o-o-o) (se foi), o garotinho não mostrou luto por ela.”


Entretanto, a partir da biografia de Anna Freud, escrita por Elizabeth Young- Bruehl, podemos compreender melhor esse não-luto observado por Freud. Ocorre que, a partir de 1920, Max (o viúvo de Sophie) começou a passar, com Ernst, parte das férias com a família Freud, e Anna se ocupava pessoalmente deles. Max estava distante e deprimido desde a morte de sua mulher, e não desfrutava muito da vida familiar dos sogros. Entre os dois irmãos, Ernst era o que estava mais transtornado pela falta da mãe, que não conseguia sequer se fazer querer pela família. Mathilde e Robert Hollister se afeiçoaram ao menor, Heinerle, tanto que quiseram adotá-lo. Ao perceber que Ernst era o que apresentava mais problemas, Anna se interessou pessoalmente por ele, com uma enorme paciência, mas vez que outra se desalentava: “pela primeira vez na vida – escreve ela – me alegro de não ter filhos, porque se Ernst fosse meu filho e se portasse assim, creio que não poderia suportá-lo.”


Apesar daquela observação com respeito ao luto em um menino, Freud vê uma certa diferença entre as crianças e os adultos a respeito da morte. Em A Interpretação dos Sonhos, afirma: “a ideia de morte em uma criança tem em comum com a nossa pouco mais que a palavra”.


Para demonstrá-lo, Freud lembra a fala de um menino de 8 anos, após voltar de uma visita ao Museu de História Natural:


-“ Gosto tanto de você, Mamãe! Quando você morrer, vou mandar empalhá-la nesse quarto,, para poder ver você o tempo todo.”[i]


Ou do que diz outro menino, com então 10 anos, após a súbita morte de seu pai:


- “Sei que papai está morto, mas o que não consigo entender é por que ele não vem para casa jantar.” [ii]


Freud então nos explica que “para as crianças (...) poupadas da visão de cenas de sofrimento que precedem a morte , estar ‘morto’ significa aproximadamente o mesmo que ‘ter ido embora’(...).” Ou seja, “a criança não estabelece nenhuma distinção quanto ao modo como essa ausência é provocada: se é devido a uma viagem, a uma demissão, a uma separação ou à morte”.[iii]


Apenas a constatação de que os mortos não retornam marca a significação da morte, para as crianças. Nesse sentido, ele lembra a observação de uma menina de quatro anos para seu pai, acerca da empregada de quem olhava com desconfiança:


- “Eu queria que Josephine morresse”.

- “Por que morresse?” – indagou o pai, acrescentando: “Não seria bastante ela ir embora?”

- “Não, porque aí ela ia voltar de novo”[iv], ela respondeu.


Por outro lado, foi a morte de um menino que fez Freud vivenciar sua teoria do luto.

Em junho de 1923, ano da primeira das 33 operações que Freud sofreria por causa de seu câncer, morre seu neto Heinerle aos quatro anos de idade, por uma tuberculose. Em agosto deste ano escreveria a Felix Deutsch: “Uma compreensível indiferença quanto a maior parte das trivialidades da vida me demonstra que a elaboração do luto está se realizando profundamente. Entre essas trivialidades se encontra a própria ciência. Não me ocorre nenhuma ideia nova e não tenho escrito nenhuma linha”.


Segundo manifestara a Jones, esta perda o havia afetado de forma distinta...havia matado algo nele. Pouco antes de morrer, Freud repete a Jones uma frase que costumava proferir de vez em quando: O resto é silêncio”...

[i] Freud,S. (1900) A Interpretação dos Sonhos. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. IV. Rio de Janeiro: Imago, 2006, p. 281. [ii] Freud,S. (1900) A Interpretação dos Sonhos. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. IV. Rio de Janeiro: Imago, 2006, p. 281. [iii] Idem. [iv] Idem, p. 282.

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