Desejo

O famoso desejo...junto com o amor, move montanhas, corre rios, até o tempo é capaz de alterar. Faz os ponteiros do relógio girarem devagar quando se está a momentos de alcançar alguma coisa que se espera. Ancorado nele, Freud escreveu um livro inteiro, revelando-o por trás dos sonhos e de sua interpretação. Lacan, dele fez um seminário – de cabo a rabo. Falou de desejo um ano inteiro! Em ambos, o desejo está sempre presente...melhor...em todos nós, na medida em que passeamos pela vida, uns com mais, outros com menos: intensidade, alienação, prazer, satisfação, tesão.

O desejo contempla mistérios. É pouco compreendido. Choram pela sua não-satisfação. Reclamam do azar, dos poucos recursos, da vida difícil. Comparam-se com os outros, irmãos, amigos, semelhantes. Ou rivais, pessoas de sorte, de sucesso. O poeta, gauche na vida, diz que a tarde seria azul não fossem tantos os desejos. O apaixonado sonha com os lábios da mulher amada tocando os seus. O rico, com sua conta cada vez mais recheada de notas verdes. O aprisionado ouve ao longe o canto do pássaro entoando liberdade.

Para além das necessidades e dos deslocamentos, o desejo é também uma defesa. Só está lá quando há algo que falta. É, assim, o que nos move e é por isso que dói, dilacera, impulsiona, e, desesperado, se gruda neste ou naquele objeto. O primeiro que passar, de preferência, assim há algo para se correr atrás. Só que essa falta, que buscamos a todo o tempo preencher com o desejo, bem, ela é estruturante. Ela tem que estar, mais ou menos marcada, ali.

Mas há algo mais surpreendente sobre o desejo: dentro de todas as nossas demandas, ele é uma demanda que se submete à lei. Se ela não está ali, não é possível desejar. Desejo sem lei é perigo na certa. Incesto. Suicídio. Pulsão de morte. Lei sem desejo é tirania e terrorismo. Desejo, quando realizado através de deslocamentos, acaba. Assim, ponto. Começa a nascer de novo, devagarzinho, e tudo recomeça, quando possível. Quem não sabe que, em francês, orgasmo se chama petit mort (pequena morte)? Mas a relação com o desejo estruturante, aquele que nasce das primeiras experiências, é de proibição, deslocamento e sublimação. E é por isso, que com ele o neurótico se relaciona de três modos fundamentais: como fóbico, histérico ou obsessivo. Ou seja, ou ele é angustiante, ou insatisfeito, ou impossível. Não realizado, é ele que nos mantém por aqui.


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