A Verdade

Elinor Cheffe é psicanalista e psicóloga. Mora em Porto Alegre.

nonocheffe@hotmail.com


O que é a verdade? Quando surge? Onde se encontra? Como se manifesta?


Tais inquietações estiveram presentes em mim desde tenra infância. .. Aos 6 anos de idade estava eu em processo de alfabetização, sem o menor êxito. Toda turma já lia e escrevia o texto da Lili, menos eu. A professora anunciou que dia seguinte passaríamos para outro texto. Fiquei tomada de tristeza e angústia e assim fui dormir. Tive um sonho no qual eu estava na escola escrevendo no quadro todo o texto da Lili. Dia seguinte cheguei na escola feliz contando a todos que havia aprendido a escrever o texto. Como? Quem ensinou? Respondi: foi sonhando! Estava dentro de mim!


Anos mais tarde, aos 11 anos estava eu numa aula de ciências estudando o corpo humano; cabeça, tronco e membros. Funções, características e principalmente, lugar dos órgãos. Foi aí que levantei o dedo e perguntei: e o pensamento onde fica... todos riram e fui de castigo. Nesse mesmo ano numa aula de religião, pois meu colégio era de freiras, estudávamos os preceitos da religião católica cuja ênfase era de que ali se encontrava a verdade. Quem crê vai pro céu, quem não crê vai pro inferno pois a verdade está na católica. Aí perguntei: que verdade? Quem disse isso????


Essas inquietações e a ousadia de manifestá-las foram a bússola que me orientou na direção da psicanálise. Entendo que se a inserção da verdade no aparelho psíquico nos indica um ponto de partida, o rastreamento através da psicanálise, nos indica o ponto de chegada.


Para Kant( 1724-1804)" verdades universais são verdadeiras, independentemente, da experiência, são a priori e essa característica pode advir da estrutura do nosso espirito." Este não é uma cera passiva onde as sensações se inscrevem, mas um órgão ativo que modela as sensações, que transforma a caótica multiplicidade dos fatos da experiência sensível em ordenadas unidades do pensamento."


Freud nos fala da existência de um núcleo de verdade oculta no delírio por exemplo. Atribui a isso a crença que o paciente tem em seu delírio; trata-se de um elemento de fé que é a origem da convicção do paciente. Esse elemento verdadeiro foi reprimido e ao retornar se apresenta deformado; a convicção compulsiva ligada ao delírio surge daí e Freud refere-se a isso como Verdade Histórica. Quando a pessoa tem revelado o material reprimido oculto em seu pensamento delirante, ela própria revela, nas próximas associações, as soluções do enigma no qual se encontra. O conhecimento do homem sobre si mesmo só foi possível a partir da doença e em especial da doença mental.

Com a psicanálise, a investigação do inconsciente visa vencer dificuldades internas que impeçam a passagem de processos inconscientes à consciência. Nesse investigar, junto vai a cura. A tarefa do analista seria completar o que foi esquecido a partir de traços deixados atrás de si. O reconhecimento desse núcleo de verdade seria o ponto de partida do tratamento, já o ponto de chegada seria a revelação das conexões íntimas entre o material da rejeição atual e o da repressão original.

Para Freud, o verdadeiro é um resto que se busca constantemente e que ao ser encontrado desaparece enquanto novo resto se constitui. A verdade só é encontrada atrás de uma mentira que lhe serve como máscara! (Lembrei da freira!). Por isso só pode ser representada mas nunca alcançada.


E assim temos aqui a função real do analista: criar um espaço pelo qual apareça o resto atrás da máscara que nos guia "fazendo consciente o inconsciente".

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