A força da palavra

Atualizado: 14 de out. de 2020

Ouve-se um grito: “A internet caiu!”. Alvoroço...os que estão na volta olham para as suas telas, hoje em dia sempre acesas, e o silêncio paira no ar. O mais angustiado espragueja, levanta-se indignado, vai até o modem e religa-o na tomada, não sem antes contar até dez, pois a moça da Net falou que se não fizer isso não adianta nada, tudo como se o plugar do aparelho na eletricidade fosse capaz de impedir uma guerra ou qualquer outra forma de devastação. Enquanto isso, os demais se retorcem, ansiosos para que tudo se resolva rapidamente.


Essa cena se repetiu uma, duas, três, n vezes, nos lares de muitos que trabalhavam em casa enquanto os filhos estudavam, uns trabalhavam mais e outros estudavam menos, ou vice-versa porque ninguém é de ferro, nesses tempos em que ficamos internos enquanto quem se esbaldava lá fora era o vírus. Diferentemente do cenário descrito em outras pestes, nessa pretendemos nos manter “conectados”.


É mesmo? De onde tirou-se essa expressão?


Cada época, sabe-se por observação – se não a nossa a de outros mais atentos -, incorpora no seu dia-a-dia vocábulos da ciência predominante no momento. Emprestamos termos da biologia (organismo, célula, corpo, para definir organizações e empresas), da física (propagar, disseminar, campo, energia), da medicina (infecção, contágio social, por exemplo) e por aí vai. Como não podia deixar de ser, já que somos feitos do mesmo barro das gerações que nos precederam, também nós criamos novas expressões: “deletar”, “bugar”, estar ou não conectado (“Fulano é um desconectado”, falamos de alguém que não interage), tudo emprestado dessa outra cena atual, o mundo “virtual”.


Etimologicamente, a palavra “conexão” significa ligação, conclusão de um silogismo, associação. Em eletrônica, uma conexão significa a junção da corrente elétrica, por contato, podendo também se referir às peças que fazem tais ligações. Em informática, fala de uma ligação entre dispositivos ou computadores, com o objetivo de transferir “dados”. Para a tecnologia da informação, “dados” são representações físicas de um evento no tempo e no espaço, sobre as quais não é possível saber nem o que significam, nem o que representam. Podem, inclusive, não representar nada. É preciso haver agregação entre os dados para que eles possam, ou não, ser “informações”.


Nem vou alongar mais a descrição computacional. Já foi-se longe demais.


Não somos bytes, não passeamos por fios, nem por ondas de rádio. Beijos não correm cabos e abraços precisam de corpos se tocando. “Ligação” é também o toque, sussurro na orelha, olho no olho, roçar a pele. É deixar algo quase cair e o outro pegar, no ar. É alguém sorrir amistoso quando o outro se atrapalha, sem precisar palavra nenhuma, porque um simples gesto pode contemplar todas. É a gargalhada quando irrompe o ato falho, o chiste, o tombo. É quando a fala tropeça, e o outro percebe. É uma mão tocando no ombro quando se está sensível.


O beijo, o abraço, o toque e o sussurro não se transformam em pyxels, assim como o fio de cobre, gelado, não transporta o calor da pele e a umidade do beijo, nem faz sentir o toque dos lábios e o perder da voz. Mas os dados e os pyxels quando se agregam geram uma imagem: a ilusão do carinho, a imagem da presença, ainda que ausente, o som da voz, tal e qual antes. Algo de mágico se opera, porque na tela do meu computador aparece justamente aquele que eu quero ver. É real? Não é real? Existe? Não existe? Quem sabe é só uma pegadinha...


Dentro desse mundo semiverdade, semi-ilusão, em que vivemos atual e virtualmente, a imagem ganhou peso. Mas o que preservou a conexão, o que manteve cada um de nós “ligados”, foi algo para além da imagem, sempre dúbia e fantasística. Algo que já estava ali, há muito tempo. E que vem perdendo a força em um mundo que cada vez mais lhe tiram seu significado.


A palavra é a grande operadora da conexão. Embora possa se servir do cabo e do dado, dos algoritmos e binarismos, da eletricidade e do wi-fi, é apenas ela que pode transportar o perfume (“passei perfume pra te encontrar”), o tesão (“como eu queria que estivéssemos juntos”), o beijo (“que saudades dos teus beijos”). É melhor parar por aqui. Pode transportar o medo, também. A raiva, o ódio, a indignação...


É a palavra que tem essa propriedade incrível de materializar afetos, sensações, sentimentos e desejos. Se existe algo capaz de nos conectar é ela, com ou sem telas intermediárias. Com ou sem pandemia. O resto? Pura troca de dados...


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